A decisão de voar

Aos 16 anos de idade, já não contava mais com meu pai e minha mãe. Eles partiram muito cedo. Fui muito bem acolhido pelos meus tios em sua casa em Porto Alegre com quem morei durante um dos períodos mais difíceis de minha vida.

Quando concluí o ensino médio, apesar de amá-los e ter a certeza do amor deles por mim, eu me sentia sobrando naquela casa. Depois de superar minhas perdas, a vontade de construir minha própria história estava muito grande dentro de mim. Era dezembro de 1992, todos os meus amigos passavam o Natal com suas as famílias e em seguida iam pra balada, mas eu não podia, pois estava sem grana e desempregado. Pra quem tem amigos de balada, dinheiro nunca é problema, ninguém fica de fora, ninguém fica sem beber. Mas aquele ano era diferente. Eu estava diferente. Lembro que agradeci a vários convites de amigos, insistentes muitas vezes, achando um absurdo eu não estar com eles nas melhores baladas do ano. Fiquei em casa, participei da ceia com os meus tios e fui pro meu quarto. Talvez os meus tios tivessem pensado que eu estava deprimido, mas o fato é que eu estava muito pensativo sobre o meu futuro.

Veio o réveillon e permaneci da mesma forma. Fiquei no meu quarto das 11h à meia noite, gravando uma fita K7 – se você tem menos de 40 procure no Google sobre esta antiguidade – com as músicas mais tocadas na radio Ipanema FM. Na hora da virada, estourei o champagne com os meus tios, desejei-lhes coisas boas e voltei para o meu quarto. Lembro-me de uma filosofia que eu tinha na época, que uma cerveja paga com seu próprio dinheiro tem outro sabor e dessa maneira, os convites dos meus amigos para pagarem o meu réveillon não foram sedutores e eu não queria mais ficar na aba de ninguém. Fiquei em casa novamente, pensando muito sobre o próximo ano. Aquele realmente viria a ser o ano que mudaria a minha vida. Eu realmente voaria alto e estava prestes a atender a uma entrevista de emprego que definiria a minha carreira profissional na área comercial. Naquela empresa, aprendi muito e me desenvolvi profissionalmente, ganhei confiança na minha capacidade e seis meses depois, fui transferido pra São Paulo, realizando meu sonho de me tornar independente já aos 19 anos.

Essas decisões tomadas no final do ano de 1992 marcaram profundamente a minha forma de ver o mundo de tal maneira que varias vezes, ao longo da minha carreira, encontrei muitos jovens que me deixaram chocado por sua covardia. Jovens que, apesar de grande capacidade, não se envergonhavam de pedir dinheiro pro papai pra ir pra balada ou até outros que gostavam de suas namoradas, mas tinham medo de se casarem e assumirem a responsabilidade sobre as contas da casa.

Sei que é natural um filho ganhar uma mesada, mas até quando? Será que os pais não passam dos limites? Eu não tive este problema, pois perdi os meus pais muito cedo e a vida me ajudou a amadurecer mais rapidamente. Mas será que muitos filhos também não se acomodam com o conforto dado pela família e por isso, vivem uma vida limitada e dependente desnecessariamente, atrasando o seu desenvolvimento?

Onde está este equilíbrio?
A resposta está no título: em sua decisão de voar. Ou melhor, a resposta está nesta palavra: DECISÃO.

Antes de desejar uma nova realidade para sua vida é preciso rejeitar e romper com a atual, passar por esta transformação e declarar a sua independência. Cedo ou tarde, isso acontece com todas as pessoas. Alguns, bem cedo e outros muito tarde. Por isso, decidi compartilhar um pouco de como passei por este processo a fim de encoraja-lo a refletir sobre o seu momento de bater as asas, tornando-se o protagonista se sua própria história.

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